A escola deve trabalhar as emoções das crianças pequenas? Essa é uma pergunta cada vez mais frequente entre pais e educadores que reconhecem a importância do desenvolvimento emocional nos primeiros anos de vida. Trabalhar a inteligência emocional desde o berçário e na educação infantil não é apenas uma tendência pedagógica, mas uma necessidade real para formar crianças mais seguras, resilientes e capazes de lidar com seus sentimentos de forma saudável.
Quando as crianças aprendem a identificar, nomear e expressar suas emoções em um ambiente acolhedor e estruturado, desenvolvem habilidades sociais mais fortes e conseguem se relacionar melhor com colegas e adultos. Estudos mostram que crianças que recebem esse tipo de orientação emocional apresentam melhor desempenho acadêmico, menos comportamentos agressivos e maior capacidade de concentração. A escola, como espaço de convivência e aprendizado, tem papel fundamental nesse processo.
Neste artigo, vamos explorar por que é essencial trabalhar as emoções na educação infantil, quais estratégias funcionam melhor e como pais e educadores podem se unir nesse objetivo.
A escola deve trabalhar as emoções das crianças pequenas? A resposta direta
Sim, a escola deve trabalhar as emoções das crianças pequenas — e essa não é uma posição opcional ou complementar, mas uma responsabilidade pedagógica central, especialmente na Educação Infantil. Quando uma criança de 2, 3 ou 4 anos morde um colega, chora sem conseguir explicar o motivo ou se recusa a participar de atividades, ela não está sendo “difícil”: está comunicando algo que ainda não tem palavras para expressar. Cabe à escola criar as condições para que esse processo de nomeação, compreensão e regulação emocional aconteça de forma segura e intencional.
A questão, no entanto, ainda gera dúvidas entre pais, gestores e até professores. Há quem acredite que esse trabalho pertence exclusivamente à família, ou que crianças pequenas “ainda não entendem” o que sentem. A neurociência, a psicologia do desenvolvimento e as próprias diretrizes curriculares brasileiras respondem com clareza: os primeiros anos de vida constituem o período mais sensível para a formação das bases emocionais do ser humano, e a escola é um dos ambientes mais poderosos para estruturar essa competência.
Entender o que é educação emocional na primeira infância ajuda a desmistificar a ideia de que se trata de algo abstrato ou distante da rotina escolar. Na prática, esse trabalho significa ensinar a criança a reconhecer o que sente, dar nome a esse sentimento, compreender que ele é válido e, progressivamente, aprender a lidar com ele sem machucar a si mesma ou aos outros.
Por que a educação emocional na infância é fundamental para o desenvolvimento integral
O que a ciência diz sobre o desenvolvimento emocional nos primeiros anos de vida
O cérebro humano atravessa seu período de maior plasticidade entre o nascimento e os 6 anos de idade. Nessa janela, as conexões neurais relacionadas à regulação emocional, à empatia e ao controle de impulsos se formam em ritmo acelerado. Pesquisas do Center on the Developing Child da Universidade de Harvard mostram que experiências acolhedoras nessa fase constroem uma arquitetura cerebral mais robusta, enquanto ambientes emocionalmente instáveis ou negligentes podem comprometer estruturas como o córtex pré-frontal — responsável pelo autocontrole e pela tomada de decisões.
O neurocientista António Damásio demonstrou, em seus estudos sobre a relação entre emoção e razão, que não é possível dissociar o aprendizado cognitivo do emocional: as emoções são o substrato sobre o qual a aprendizagem se constrói. Uma criança que não consegue regular sua ansiedade ou frustração terá dificuldade para manter a atenção, engajar-se em tarefas e relacionar-se com colegas e professores. Isso significa que investir na educação emocional não é desviar o foco do aprendizado — é a condição para que ele aconteça.
Além disso, estudos longitudinais como o conduzido pela Universidade de Pennsylvania com crianças em idade pré-escolar indicam que habilidades socioemocionais desenvolvidas antes dos 6 anos são preditores significativos de sucesso escolar, saúde mental e qualidade de vida na vida adulta — mais até do que o QI isolado.
Como as emoções afetam a aprendizagem, o comportamento e as relações sociais das crianças
Uma criança que chega à escola carregando medo, insegurança ou raiva não aprende com a mesma disponibilidade de uma criança emocionalmente acolhida. Isso ocorre porque o sistema límbico — sede das emoções — quando ativado em modo de alerta, reduz o acesso ao córtex pré-frontal, onde se processam funções executivas como memória de trabalho, planejamento e atenção sustentada. Em termos práticos: uma criança em “modo de sobrevivência” emocional simplesmente não está acessível para aprender.
No plano comportamental, crianças que não receberam suporte para nomear e regular o que sentem tendem a expressar suas emoções pelo corpo: bater, morder, gritar, se isolar ou ter crises de choro intensas. Esses comportamentos, frequentemente interpretados como “birra” ou “mau comportamento”, são na maioria das vezes sinais de que a criança ainda não possui recursos internos suficientes para lidar com o que está vivenciando. A escola que compreende essa dinâmica responde com acolhimento e ensino, não com punição.
No campo das relações sociais, a competência emocional é a base da empatia, da cooperação e da resolução de conflitos. Crianças que aprendem a reconhecer suas próprias emoções desenvolvem com mais facilidade a capacidade de perceber as emoções alheias — habilidade essencial para construir amizades, trabalhar em grupo e conviver em comunidade.
O papel da escola na educação emocional: responsabilidade compartilhada com a família
O que diz a BNCC sobre o trabalho com emoções na Educação Infantil
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) posiciona o trabalho com as emoções como parte estrutural da Educação Infantil, não como tema transversal ou opcional. O documento organiza as experiências de aprendizagem em seis direitos — conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se — e todos eles carregam uma dimensão emocional direta. O direito de “conhecer-se”, por exemplo, implica que a criança desenvolva gradualmente o autoconhecimento, incluindo a percepção de seus próprios estados internos.
Nos campos de experiências, especialmente em “O eu, o outro e o nós”, a BNCC orienta que as crianças sejam incentivadas a perceber que suas ações têm efeitos sobre os outros, a lidar com conflitos de forma progressivamente autônoma e a construir vínculos afetivos com colegas e professores. Já no campo “Corpo, gestos e movimentos”, há orientação explícita para que sentimentos e emoções sejam expressos por meio de diferentes linguagens corporais e artísticas.
Isso significa que uma escola de Educação Infantil que não trabalha as emoções de forma intencional está, na prática, descumprindo as diretrizes curriculares nacionais. A educação emocional não é um “extra” — é currículo.
Escola e família: como alinhar a educação emocional nos dois ambientes
A educação emocional é mais efetiva quando escola e família falam a mesma língua. Quando a criança aprende na escola a usar o “cantinho da calma” para se autorregular, mas em casa é mandada para o quarto como punição, cria-se uma dissonância que prejudica o processo de aprendizagem emocional. Por isso, a comunicação entre os dois ambientes é estratégica.
A escola pode e deve promover essa ponte por meio de reuniões de pais com foco em desenvolvimento emocional, materiais informativos enviados para casa, relatos personalizados sobre como cada criança está lidando com suas emoções no contexto escolar e sugestões de como os responsáveis podem reforçar as mesmas práticas no cotidiano familiar. Saber identificar sinais de que a criança pode estar ansiosa na escola é uma competência que a escola pode ajudar os pais a desenvolverem.
Essa parceria não significa que a escola transfere sua responsabilidade para a família, nem que a família depende da escola para educar emocionalmente seus filhos. Significa que os dois ambientes, quando alinhados, potencializam os resultados de forma expressiva. A criança que recebe consistência emocional em casa e na escola tem uma base muito mais sólida para se desenvolver.
Como a escola pode trabalhar as emoções das crianças pequenas na prática
Rodas de conversa e escuta ativa: criando espaços seguros para expressar sentimentos
A roda de conversa é uma das ferramentas mais poderosas da Educação Infantil para o trabalho emocional. Quando conduzida com intencionalidade, cria um espaço ritualizado de escuta onde a criança aprende que seus sentimentos têm lugar, que falar sobre o que sente é seguro e que os outros também experimentam emoções semelhantes. O professor que conduz a roda com perguntas abertas — “Como você está se sentindo hoje?”, “Teve alguma coisa que te deixou bravo esta semana?” — modela a linguagem emocional e valida a experiência de cada criança.
A escuta ativa do professor nesses momentos é fundamental. Isso significa não interromper, não minimizar (“isso não é nada”), não comparar (“seu colega não chora por isso”) e não resolver o sentimento da criança antes que ela o expresse completamente. O simples ato de ser ouvido já tem efeito regulatório — estudos em neurociência afetiva mostram que a co-regulação com um adulto atento reduz os níveis de cortisol em crianças pequenas.
Uso de histórias, livros e personagens para nomear e identificar emoções
A literatura infantil é um recurso excepcional para a educação emocional porque permite que a criança explore sentimentos complexos a uma distância segura — por meio dos personagens. Quando ouve a história de um personagem que está com ciúme do irmão recém-chegado, ela pode reconhecer aquele sentimento em si mesma sem se sentir exposta ou julgada. Esse processo, chamado de identificação projetiva, facilita a nomeação e a elaboração emocional.
Obras como O Monstro das Cores (Anna Llenas), Quando Estou Com Raiva (Cornelia Maude Spelman) e Hoje Estou (Mies van Hout) trabalham diretamente a identificação das emoções com linguagem acessível para crianças de 2 a 6 anos. Após a leitura, o professor pode propor perguntas como “Você já sentiu o que o personagem sentiu?” ou “O que você faz quando fica com esse sentimento?” para aprofundar a reflexão. Aprender como ensinar a criança a nomear o que sente passa muito pelo uso consistente desse tipo de recurso literário.
Jogos, brincadeiras e atividades lúdicas como ferramentas de regulação emocional
O brincar é a linguagem natural da criança pequena — e também um dos mecanismos mais eficazes de regulação emocional disponíveis nessa faixa etária. Durante o jogo simbólico, a criança processa experiências emocionais, experimenta diferentes papéis sociais e desenvolve a capacidade de tolerar frustrações, como perder uma partida ou aguardar a própria vez. O professor que observa a brincadeira livre com atenção encontra ali informações riquíssimas sobre o estado emocional de cada criança.
Além do brincar livre, atividades estruturadas com foco emocional também têm grande valor:
- Jogo das expressões faciais: crianças imitam e identificam emoções em fotografias ou espelhos.
- Dado das emoções: cada face do dado traz uma emoção; ao lançar, a criança conta uma situação em que sentiu aquilo.
- Teatro de fantoches: permite que a criança expresse conflitos e sentimentos por meio dos personagens.
- Músicas sobre emoções: canções que nomeiam sentimentos e propõem movimentos corporais associados a eles.
- Respiração guiada e técnicas de mindfulness adaptadas: exercícios simples como “respirar como uma flor” auxiliam na autorregulação fisiológica.
Cantinhos das emoções e recursos visuais em sala de aula
O ambiente físico da sala de aula comunica valores pedagógicos. Uma sala que possui um cantinho das emoções — espaço com almofadas, livros sobre sentimentos, cartelas de expressões faciais, massa de modelar ou outros materiais sensoriais — transmite a mensagem de que as emoções têm lugar naquele ambiente. Esse cantinho não é um “castigo” nem um destino para crianças que se comportam mal: é um recurso disponível para qualquer criança que precise de um momento de autorregulação.
Recursos visuais como o termômetro das emoções, o painel “Como estou hoje?” — onde cada criança posiciona seu nome ao lado de uma expressão facial no início do dia — e os cartões de emoções espalhados pela sala ajudam a incorporar o vocabulário emocional ao cotidiano, e não apenas a momentos específicos. Quando a criança passa pelo painel toda manhã e escolhe como está se sentindo, ela pratica diariamente o autoconhecimento emocional.
Como lidar com conflitos entre crianças pequenas de forma educativa
Conflitos entre crianças pequenas são inevitáveis — e representam oportunidades de aprendizagem emocional, não problemas a serem eliminados. A forma como o professor intervém nesses momentos define se a criança aprende a resolver conflitos ou apenas aprende a evitar a punição do adulto. A abordagem educativa passa por algumas etapas fundamentais:
- Acolher primeiro: antes de qualquer conversa, garantir que todas as crianças envolvidas estejam fisicamente seguras e emocionalmente receptivas.
- Nomear o que aconteceu: descrever os fatos sem julgamento — “Você pegou o brinquedo do João sem pedir”.
- Nomear as emoções: “Parece que você ficou com raiva porque queria brincar com aquilo. João, você ficou triste quando seu brinquedo foi tirado?”
- Buscar soluções juntos: perguntar às crianças o que poderia ser feito para resolver a situação, mesmo que o professor precise sugerir opções.
- Reparar o vínculo: incentivar gestos de reparação — não como obrigação mecânica, mas como parte do aprendizado sobre consequências e empatia.
Esse processo, repetido de forma consistente ao longo do tempo, internaliza nas crianças um modelo de resolução de conflitos que carregarão para toda a vida.
Emoções mais desafiadoras na infância e como a escola pode ajudar
Raiva e frustração: estratégias de regulação para crianças de 0 a 6 anos
A raiva é uma das emoções mais desafiadoras de manejar em sala de aula, especialmente porque sua expressão costuma ser intensa e física nas crianças pequenas. Morder, bater, jogar objetos e gritar são manifestações comuns em crianças de 1 a 4 anos que ainda não desenvolveram os recursos neurológicos e linguísticos para expressar esse sentimento de outra forma. É fundamental que o professor compreenda isso como uma questão de desenvolvimento, não de caráter.
Estratégias eficazes para trabalhar a raiva e a frustração nessa faixa etária incluem:
- Nomear a emoção em voz alta: “Eu vejo que você está com muita raiva agora.”
- Oferecer um canal físico seguro: “Você pode apertar essa almofada com força.”
- Ensinar a respiração como ferramenta: “Vamos respirar fundo três vezes juntos.”
- Reduzir estímulos: levar a criança para um espaço mais calmo enquanto a emoção ainda está intensa.
- Nomear o gatilho depois que a criança se acalmar: a conversa sobre o que aconteceu só é produtiva após a regulação fisiológica.
A frustração, por sua vez, é trabalhada progressivamente ao longo da rotina escolar — cada vez que a criança precisa esperar, dividir, perder ou tentar de novo, ela está ampliando sua tolerância a situações adversas. O papel do professor é calibrar o nível de desafio: nem tão simples que não exija esforço, nem tão difícil que gere desamparo.
Medo, ansiedade e tristeza: como o professor pode acolher sem minimizar
Frases como “não chora, não tem nada”, “isso não é assustador” ou “você é grande demais para ter medo” são bem-intencionadas, mas invalidam a experiência emocional da criança e ensinam que seus sentimentos não são confiáveis. O acolhimento genuíno começa pelo reconhecimento: “Eu entendo que você está com medo. Esse sentimento é real.”
Para crianças com ansiedade de separação — muito comum no início do ano letivo em berçários e pré-escolas — a consistência da rotina, a previsibilidade dos rituais de chegada e saída e a construção de um vínculo seguro com o professor são os principais fatores protetores. Reconhecer os sinais de ansiedade na escola permite que professores e pais intervenham precocemente, antes que o quadro se intensifique.
A tristeza, muitas vezes negligenciada por ser menos “barulhenta” que a raiva, também merece atenção. Uma criança quieta, retraída, que perdeu o interesse em brincar ou que chora com frequência está sinalizando algo importante. O professor atento percebe essas mudanças e cria espaço para que a criança expresse o que está sentindo, sem pressa para que ela “fique feliz”.
Ciúme e disputa por atenção: o que está por trás desses comportamentos
O ciúme e a disputa por atenção são comportamentos esperados na Educação Infantil, especialmente em grupos com muitas crianças e um número limitado de adultos. Por trás dessas manifestações está, quase sempre, uma necessidade legítima de vínculo, segurança e pertencimento. A criança que “sempre quer ser a primeira”, que “implica com o colega que o professor elogiou” ou que “faz birra quando o professor atende outra criança” está comunicando: “Preciso saber que sou importante aqui.”
A resposta educativa passa por garantir momentos individualizados de atenção para cada criança, por nomear explicitamente o ciúme (“Parece que você ficou com ciúme quando eu ajudei a Maria. Isso acontece às vezes, né?”) e por ajudar a criança a perceber que a atenção dedicada a um colega não diminui o afeto que existe por ela. Em paralelo, comunicar à família quando esses comportamentos são frequentes ou intensos faz parte do cuidado integral.
O papel do professor como referência emocional para as crianças pequenas
Autoconhecimento emocional do educador: por que cuidar de si é parte do trabalho
O professor de Educação Infantil é, para muitas crianças, a primeira figura de referência emocional fora do ambiente familiar. Isso significa que sua forma de lidar com as próprias emoções é observada, absorvida e modelada pelas crianças de maneira constante — muito mais do que qualquer atividade estruturada. Um professor que perde a paciência com frequência, que ignora crianças chorando ou que trata conflitos com irritação está ensinando, involuntariamente, um modelo de gestão emocional.
Por isso, o autoconhecimento emocional do educador não é um tema de desenvolvimento pessoal separado do trabalho — é parte integrante da prática pedagógica. Isso inclui reconhecer os próprios gatilhos, desenvolver estratégias de autorregulação para momentos de alta demanda e buscar suporte quando necessário. Escolas que investem no bem-estar emocional de seus professores colhem resultados diretos na qualidade do ambiente das salas de aula.
Formação de professores para a educação socioemocional na primeira infância
A formação inicial dos professores de Educação Infantil no Brasil ainda dedica pouco espaço ao desenvolvimento socioemocional. A maioria dos cursos de Pedagogia aborda o tema de forma superficial, o que faz com que muitos educadores cheguem às salas de aula sem ferramentas concretas para trabalhar as emoções das crianças com intencionalidade.
A formação continuada torna-se, portanto, essencial. Isso pode acontecer por meio de cursos específicos em educação socioemocional, grupos de estudo dentro da própria escola, supervisão pedagógica com foco no desenvolvimento emocional e leitura de referências como os trabalhos de Daniel Goleman, Stuart Shanker (abordagem Self-Reg) e Tina Payne Bryson. Gestores que compreendem a importância desse investimento constroem equipes mais preparadas e ambientes escolares emocionalmente mais seguros.
Benefícios comprovados de trabalhar as emoções desde a Educação Infantil
Impacto na saúde mental, no desempenho escolar e nas habilidades sociais
Uma meta-análise publicada no periódico Child Development, envolvendo mais de 270.000 crianças em programas de aprendizagem socioemocional (SEL), mostrou que os participantes apresentaram melhora de 11 pontos percentuais no desempenho acadêmico em comparação com grupos controle, além de redução significativa em problemas de comportamento e aumento em atitudes pró-sociais. Esses resultados se mantiveram em acompanhamentos de longo prazo.
No campo da saúde mental, crianças que recebem educação emocional desde cedo desenvolvem maior resiliência, menor vulnerabilidade a transtornos de ansiedade e depressão e maior capacidade de buscar ajuda quando necessário. Também apresentam melhor qualidade de sono, menos queixas psicossomáticas e maior engajamento escolar — indicadores que se retroalimentam positivamente.
Nas habilidades sociais, os benefícios são igualmente documentados: maior empatia, melhor capacidade de negociação, mais facilidade para construir e manter amizades e menor envolvimento em situações de conflito. Essas competências são cada vez mais valorizadas nas relações pessoais e profissionais — e sua base é construída nos primeiros anos de vida.
Prevenção de bullying, violência e dificuldades de convivência no futuro
O bullying raramente surge do nada no Ensino Fundamental. Suas raízes estão, em grande parte, em padrões de relação aprendidos na primeira infância: a criança que aprendeu a resolver conflitos pela força, que nunca desenvolveu empatia, que não sabe lidar com a frustração de não ser o centro das atenções. Trabalhar as emoções na Educação Infantil é, portanto, uma das formas mais eficazes de prevenção — muito mais do que campanhas pontuais nos anos seguintes.
Escolas que implementam programas consistentes de educação emocional desde o berçário relatam ambientes mais harmoniosos, menos ocorrências disciplinares e maior senso de pertencimento entre os alunos. Para aprofundar esse tema, vale explorar como trabalhar o bullying na educação infantil de forma preventiva e estruturada.
Exemplos de projetos e experiências reais de educação emocional em escolas brasileiras
Projetos de sucesso em creches e pré-escolas públicas e privadas no Brasil
O Brasil conta com experiências inspiradoras de educação emocional na primeira infância, tanto na rede pública quanto na privada. Em São Paulo, a Secretaria Municipal de Educação implementou o programa Mais Infância, que inclui formação de professores em desenvolvimento socioemocional e materiais pedagógicos específicos para creches e pré-escolas. Os resultados preliminares apontam redução de conflitos físicos e maior participação das crianças em atividades coletivas.
Na rede privada, diversas escolas adotaram abordagens como o Método Montessori — que coloca a autonomia e a autorregulação emocional no centro da prática pedagógica — e o Positive Discipline, que trabalha a disciplina por meio do desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Instituições que integram o trabalho emocional à rotina diária, e não apenas em “projetos temáticos” pontuais, apresentam resultados mais consistentes e duradouros.
Iniciativas como o “Meu Mundo Emocional”, desenvolvido em pré-escolas de Minas Gerais, e experiências de trabalho com emoções na educação infantil que integram arte, música e literatura têm demonstrado que é possível construir uma cultura emocional saudável mesmo com recursos limitados, desde que haja intencionalidade pedagógica e formação docente adequada.
Como avaliar se o trabalho emocional está sendo efetivo na sua escola
Avaliar a educação emocional requer instrumentos diferentes dos usados para mensurar conteúdos cognitivos. Alguns indicadores que podem ser acompanhados ao longo do tempo incluem:
- Redução na frequência e intensidade de conflitos físicos entre crianças.
- Ampliação da capacidade das crianças de nomear o que sentem (vocabulário emocional).
- Maior participação nas rodas de conversa sobre sentimentos.
- Comportamentos pró-sociais mais frequentes: compartilhar, consolar colegas, pedir desculpas espontaneamente.
- Relatos das famílias sobre mudanças no comportamento emocional em casa.
- Clima emocional da sala de aula observado pelo professor e pela coordenação pedagógica.
Ferramentas como o portfólio de desenvolvimento, os registros fotográficos e escritos da rotina emocional e as conversas estruturadas com as famílias são formas de documentar e acompanhar esse processo. Gestores que desejam aprofundar essa avaliação podem considerar instrumentos validados como o DECA (Devereux Early Childhood Assessment), adaptado para o contexto brasileiro em algumas redes municipais.
Perguntas frequentes sobre educação emocional para crianças pequenas
A partir de que idade a escola deve começar a trabalhar as emoções com as crianças?
Desde o berçário — ou seja, desde os primeiros meses de vida. O trabalho emocional com bebês acontece principalmente por meio da qualidade do vínculo com o cuidador: respostas consistentes ao choro, contato visual, tom de voz acolhedor e toque seguro já são formas de educação emocional. À medida que a criança cresce, as estratégias tornam-se progressivamente mais verbais e simbólicas, mas a base afetiva construída no berçário é o alicerce de tudo. Compreender por que se preocupar com a educação emocional já nos primeiros anos ajuda famílias e escolas a não subestimarem essa janela de oportunidade.
Trabalhar emoções na escola não é papel dos pais?
É papel dos pais — e também da escola. As duas instâncias têm responsabilidades complementares, não excludentes. A família é o primeiro e mais fundamental ambiente de desenvolvimento emocional da criança. A escola, por sua vez, oferece algo que a família não pode proporcionar sozinha: a experiência de conviver com pares, de pertencer a um grupo, de negociar, compartilhar e se relacionar com adultos de referência fora do núcleo familiar. Esse contexto é único para o desenvolvimento emocional e não pode ser substituído. Quando pais se perguntam









