Existe bullying na educação infantil?

A resposta para essa pergunta passa por entender os dois conceitos, tanto o de bullying quanto o de educação infantil. Vamos a elas?

Considere que educação infantil é a primeira etapa da Educação Básica, destinada às crianças de zero aos 5 anos e o principal objetivo é promover o desenvolvimento integral da criança em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, atuando em complemento à ação da família e da comunidade.

Agora considere que o bullying é a prática de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, cometidos por um ou mais agressores contra uma determinada vítima. A ideia do bully deriva da figura do valentão, um arquétipo frequente no cinema voltado aos adolescentes, em que o líder ou a líder de um grupo de adolescentes, maltrata e exclui outro(a) adolescente (a vítima). É essa imagem que ficou para a maior parte das pessoas quando pensa em bullying. A realidade é que é também ocorrer o bullying em outras situações, como, por exemplo, no ambiente de trabalho ou na igreja. Cabe ainda destacar que o bullying foi criminalizado para combater o aumento das taxas de violência física e psicológica e proteger a saúde mental de crianças e adolescentes. A tipificação buscou punir agressores, prevenir tragédias (como automutilação ou suicídio) e fornecer ferramentas legais aos educadores e autoridades para conter essa prática sistemática. O bullying e o cyberbullying passaram a ser considerados crimes no Brasil em janeiro de 2024, com a sanção da Lei 14.811.

Podemos assim determinar que o Bullying para existir deve apresentar três características centrais:

  •         Intencionalidade: O desejo consciente de machucar, humilhar ou ofender.
  •         Repetição: Agressões frequentes e prolongadas contra a mesma pessoa.
  •         Desequilíbrio de Poder: Uma nítida desigualdade de forças (física, social ou psicológica) entre o agressor e a vítima, tornando difícil a defesa.


  O Bullying é seríssimo e a prevenção e combate demandam um esforço coletivo envolvendo escolas, pais, estudantes e a sociedade em geral. Essencialmente o ser humano tem a necessidade de pertencer, e é na adolescência que essa necessidade transcende o grupo familiar e se torna muito mais forte em relação ao grupo de pares. Exatamente por isso, nessa fase, ele é especialmente perigoso. Em certa medida, algumas crianças podem recorrer a comportamentos de bullying porque, nessa idade, a exclusão tem um peso muito grande. O medo de ficar de fora, a busca por ocupar um lugar de destaque no grupo, o desejo de controlar os outros e a tentativa de melhorar seu próprio status social podem levar a atitudes de intimidação, rejeição ou dominação sobre os colegas.

Mas voltando a nossa pergunta inicial. Existe Bullying na educação infantil? Diante dessas definições, fica difícil aceitar que existe bullying nas escolas de educação infantil, porque, observe, a criança até os cinco anos, não tem ainda capacidade de compreender a dimensão de suas ações. Como então falar em intencionalidade?

O conceito de bullying pressupõe repetição, desequilíbrio de poder e, sobretudo, intencionalidade. E é justamente a intencionalidade que precisa ser analisada com cuidado nessa faixa etária.

A criança pequena ainda está desenvolvendo sua capacidade de compreender o impacto de suas ações sobre o outro. Ela pode empurrar, excluir, provocar ou repetir atitudes que machucam um colega, mas muitas vezes não consegue dimensionar o sofrimento que causa nem antecipar plenamente as consequências emocionais de seu comportamento.

O típico comportamento na escola de educação infantil, como vemos no Colégio Itatiaia algumas vezes, é a disputa por algum item gerar conflitos, uma criança que bate, morde ou agride, porque ainda não tem controle sobre suas emoções e seu comportamento. Não é incomum que uma criança em um dia diga explicitamente “não gosto de você, não quero brincar com você” e no dia seguinte, esteja super engajada em um jogo com esse amigo.

Por isso, na educação infantil, é mais adequado falar em comportamentos recorrentes de agressão, exclusão ou intimidação, e não necessariamente em bullying no sentido estrito do termo. Isso não significa minimizar o sofrimento da criança atingida, nem deixar de intervir. Pelo contrário: a escola deve proteger a criança, interromper a repetição dos comportamentos e trabalhar empatia, linguagem emocional, reparação e convivência. Há inclusive o trabalho com o desenvolvimento sócio emocional, que funciona preventivamente. Na nossa escola, as professoras utilizam para o desenvolvimento sócio emocional o Blooming Kids, que inclui material autoral, jogos, vivências e projetos. Um ambiente acolhedor também ajuda à melhorar a relação entre as crianças e desenvolver empatia e habilidades cognitivas.

A questão, portanto, não é negar que crianças pequenas possam machucar outras crianças, mas reconhecer que, até os cinco anos, elas ainda não possuem maturidade suficiente para que se atribua a elas, de forma simples e direta, a intencionalidade exigida pelo conceito clássico de bullying.

De qualquer forma quando um comportamento se repete, há uma vítima identificável e existe desequilíbrio de força entre os envolvidos a escola precisa agir para enfrentar a situação. Nenhuma mãe gosta quando seu filho sofre uma agressão na escola e cabe a escola criar as condições que minimizem esse tipo de incidente. A seguir algumas considerações sobre como trabalhar os conflitos e o bullying na educação infantil, considerando que a boa prática na pré escola, ajuda a evitar o comportamento no ensino fundamental.  

Base legal e pedagógica: o que a BNCC e a Lei 13.185/2015 dizem sobre o tema

A Lei 13.185/2015, que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying), é clara ao determinar que todos os estabelecimentos de ensino devem desenvolver ações de prevenção e enfrentamento ao bullying. A lei define o fenômeno, estabelece responsabilidades institucionais e prevê a capacitação de profissionais da educação como obrigação, não como opção.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por sua vez, posiciona o desenvolvimento socioemocional como eixo estruturante desde a educação infantil. Os campos de experiência “Eu, o outro e o nós” e “Corpo, gestos e movimentos” contemplam diretamente objetivos relacionados à convivência respeitosa, ao reconhecimento das emoções próprias e alheias e à construção de relações de cuidado e empatia. Ajudar as crianças a compreender o outro e a si mesmas é o ínicio de qualquer esforço sobre como trabalhar o bullying tanto na educação infantil, quanto no momento em que ele realmente acontece. Não é um desvio do currículo — é cumpri-lo em sua dimensão mais essencial.

Do ponto de vista pedagógico, abordagens como a Educação Socioemocional (SEL — Social and Emotional Learning), amplamente validadas por pesquisas internacionais, demonstram que programas iniciados na pré-escola reduzem em até 50% os comportamentos agressivos e ampliam significativamente as habilidades pró-sociais das crianças ao longo de toda a vida escolar. No Colégio Itatiaia, o desenvolvimento socioemocional é um dos alvos e objetivos previstos em toda a prática cotidiana, e ainda conta com o nosso programa autoral The Blooming Kids. 

Como abordar os conflitos e o bullying em sala de aula na educação infantil: estratégias práticas para professores

Enfrentar os conflitos e disputas na educação infantil não se faz com palestras, punições isoladas ou conversas abstratas sobre “ser bonzinho”. O desenvolvimento cognitivo da criança pequena exige estratégias concretas, sensoriais, lúdicas e repetidas no tempo. A professora e as auxiliares são as principais agentes de prevenção — e suas posturas cotidianas modelam os padrões de convivência do grupo tanto quanto qualquer atividade elaborada.

Roda de conversa: como conduzir diálogos sobre respeito e empatia com crianças pequenas

A roda de conversa é um dos recursos mais potentes da educação infantil justamente porque combina escuta, fala e pertencimento ao grupo. Para tratar temas relacionados ao bullying, o professor deve estruturá-la com intenção pedagógica clara, sem transformá-la em um “tribunal” de comportamentos. Algumas orientações práticas:

  • Use situações hipotéticas ou personagens fictícios para abrir o tema, evitando expor crianças reais: “Imagina que tem um menino chamado Léo que fica sempre sozinho no recreio porque os colegas não deixam ele brincar. Como o Léo deve estar se sentindo?”
  • Faça perguntas abertas que estimulem a perspectiva do outro: “O que você faria se fosse o Léo?” / “E se você fosse um dos amigos que não deixou ele brincar?”
  • Valide todas as respostas sem julgamento imediato, criando segurança para que as crianças se expressem com honestidade.
  • Encerre sempre com uma conclusão positiva e concreta: “Então, o que a gente pode fazer diferente quando alguém está sozinho?”

A roda de conversa ganha ainda mais força quando integrada a outras estratégias, como a leitura de uma história que abra o tema ou uma atividade artística que ajude a processar os sentimentos levantados. Para aprofundar o trabalho com emoções nesse contexto, vale consultar o material sobre como trabalhar as emoções na educação infantil, que oferece suporte metodológico complementar.

Uso de histórias infantis e livros para introduzir o tema de forma lúdica

A literatura infantil é uma ponte privilegiada para temas sensíveis porque cria distância segura: a criança processa situações difíceis por meio do personagem, sem se sentir exposta ou acusada. Ao acompanhar a história de um personagem que sofre exclusão ou que aprende a tratar os colegas com respeito, ela ativa empatia e reflexão de forma espontânea.

A leitura mediada — em que o professor pausa, faz perguntas, convida as crianças a prever o que vai acontecer e a comentar as ações dos personagens — potencializa o impacto pedagógico. Não basta ler o livro: é preciso criar espaço de diálogo antes, durante e depois da leitura. Perguntas como “Por que você acha que ele fez isso?” e “Como você acha que o personagem se sentiu?” constroem o músculo da empatia de forma sistemática.

Atividades de expressão corporal e artística para trabalhar sentimentos e acolhimento

A argila também expressa emoções

Crianças de 3 a 6 anos processam emoções predominantemente pelo corpo e pela arte — não pela linguagem verbal abstrata. Atividades que envolvem desenho, pintura, modelagem, teatro e movimento são caminhos privilegiados para que a criança nomeie, expresse e elabore sentimentos relacionados à exclusão, ao medo, à tristeza e à alegria do pertencer.

Algumas possibilidades concretas:

  • Desenho das emoções: peça que a criança desenhe “como você se sente quando alguém não quer brincar com você” e, em seguida, “como você se sente quando alguém te convida para brincar”. A comparação visual entre os dois registros é bastante reveladora.
  • Modelagem com argila: trabalhar com materiais táteis ajuda crianças com dificuldade de expressão verbal a externalizarem estados emocionais. A argila na educação infantil pode ser usada para criar personagens e encenar situações de conflito e resolução.
  • Mímica das emoções: o professor nomeia uma emoção (raiva, tristeza, alegria, medo, orgulho) e as crianças a expressam com o corpo. Em seguida, discutem: “Quando você sente isso? O que faz você sentir assim?”

Jogos cooperativos e brincadeiras que promovem inclusão e pertencimento

Os jogos cooperativos são o antídoto pedagógico mais direto à lógica do bullying, que se sustenta na exclusão e na hierarquia. Enquanto os jogos competitivos criam vencedores e perdedores — reforçando potencialmente dinâmicas de poder —, os cooperativos colocam todas as crianças no mesmo time, com um objetivo comum que só é alcançado se todos colaborarem.

Exemplos aplicáveis à educação infantil:

  • Teia de aranha: as crianças ficam em roda e passam um novelo de lã umas às outras, cada uma segurando um pedaço. Ao final, forma-se uma teia. O professor discute: “O que acontece com a teia se uma pessoa soltar?” — metáfora poderosa sobre interdependência e cuidado mútuo.
  • Construção coletiva: montar uma estrutura com blocos em que cada criança contribui com uma peça, sem que nenhuma consiga concluir a tarefa sozinha.
  • Dança das cadeiras inclusiva: versão modificada em que, ao invés de eliminar quem fica sem cadeira, as crianças compartilham o espaço, ou seja, podem sentar duas na mesma cadeira — o objetivo é que todos caibam, não que alguém seja excluído.

A repetição sistemática dessas dinâmicas ao longo do ano letivo constrói uma cultura de turma baseada em pertencimento — o principal fator de proteção contra o bullying.

3 atividades estruturadas para combater os conflitos na educação infantil (passo a passo)

Além das estratégias cotidianas, algumas atividades mais estruturadas podem ser aplicadas em momentos específicos do calendário pedagógico ou sempre que a dinâmica da turma exigir uma intervenção mais intencional. As três propostas a seguir foram pensadas para a faixa etária de 3 a 6 anos, com materiais acessíveis e condução adaptável ao contexto de cada escola.

Atividade 1: O mural das qualidades — reconhecendo o que há de bom em cada colega

Objetivo: desenvolver o olhar positivo sobre o outro, fortalecer a autoestima e criar vínculos de reconhecimento mútuo na turma.

Materiais: papel kraft ou cartolina grande, fotos das crianças (ou desenhos feitos por elas mesmas), tinta, carimbo de mãos, canetas coloridas.

Passo a passo:

  1. Cole as fotos (ou desenhos) de cada criança no mural, deixando espaço ao redor de cada imagem.
  2. Em roda, o professor apresenta uma criança por vez e pergunta ao grupo: “O que você gosta no [nome]? O que ele/ela faz bem? Como ele/ela é com os amigos?”
  3. O professor (ou as próprias crianças, com apoio) registra as qualidades ao redor da foto de cada colega.
  4. Cada criança carimba a mão ao lado do colega homenageado, como gesto simbólico de reconhecimento.
  5. O mural permanece exposto na sala durante todo o período, sendo referenciado pelo professor sempre que surgir um conflito ou um momento de exclusão: “Lembra o que a turma escreveu sobre o João? Que ele é generoso? Vamos agir assim agora.”

Variação: em turmas maiores, o professor pode conduzir o mural em etapas, apresentando 3 a 4 crianças por semana para preservar a profundidade do processo.

Atividade 2: Teatro de fantoches — encenando situações de conflito e resolução

Objetivo: permitir que as crianças vivenciem, de forma segura e lúdica, situações de exclusão, agressão verbal e resolução de conflitos, ampliando o repertório de respostas pró-sociais.

Materiais: fantoches podem ser confeccionados com meias velhas, papel e botões. No colégio Itatiaia, os bonecos do programa de desenvolvimento socioemocional (Carol, Betuca e outros) servem a esse propósito.

Passo a passo:

  1. O professor prepara dois ou três roteiros curtos baseados em situações reais da turma (sem identificar crianças específicas), como: “A Carol não quer que o Betuca brinque no escorregador” ou “Os fantoches riem do cabelo diferente do fantoche Amarelo”.
  2. Apresenta a primeira cena ao grupo — apenas o conflito, sem resolução. Interrompe a peça no meio e pergunta: “O que está acontecendo? Como o Betuca está se sentindo? O que Carol poderia fazer diferente?”
  3. Convida duas crianças voluntárias a encenarem a resolução com os fantoches, com apoio do professor.
  4. Discute com a turma: “Essa solução foi boa para todos? Tem outra forma de resolver?”
  5. Encerra com a cena de resolução sendo apresentada de forma positiva, para que a criança saia da atividade com um modelo concreto de comportamento pró-social.

O teatro de bonecos e fantoches é especialmente eficaz porque a criança pode  ter vários papeis – “ser” o agressor, a vítima e o mediador em momentos diferentes, desenvolvendo perspectiva múltipla — habilidade central para a empatia.

Atividade 3: O termômetro das emoções — identificando e nomeando sentimentos

Objetivo: ampliar o vocabulário emocional das crianças, tornando-as capazes de identificar e nomear o que sentem — pré-requisito para a regulação emocional e para a comunicação não violenta.

Materiais: termômetro grande feito em papel (com gradações de cores, do azul ao vermelho), cartões com expressões faciais representando diferentes emoções, velcro ou imãs para fixar os cartões.

Passo a passo:

  1. Apresente o termômetro à turma explicando que, assim como o termômetro mede a temperatura do corpo, esse mede a “temperatura” dos sentimentos: azul para calmo/triste/com medo, verde para bem/tranquilo, amarelo para animado/curioso, vermelho para com raiva/muito agitado.
  2. Todos os dias, na chegada ou antes de uma atividade importante, cada criança posiciona um cartão com seu nome (ou sua foto) no termômetro, indicando como está se sentindo.
  3. O professor usa o termômetro como ponto de partida para conversas individuais breves: “Vejo que você está no vermelho hoje. Quer me contar o que aconteceu?”
  4. Periodicamente, o professor contextualiza situações de conflito a partir do termômetro: “Quando alguém nos exclui da brincadeira, onde você acha que ficamos? Por quê?”

Usado de forma consistente, o termômetro das emoções cria uma linguagem compartilhada na turma que facilita a identificação precoce de crianças em sofrimento — e reduz a probabilidade de que sentimentos de raiva ou humilhação se acumulem sem expressão. Esse trabalho se conecta diretamente ao que exploramos no post sobre como trabalhar as emoções na educação infantil.

O papel da formação moral na prevenção de disputas, conflitos e do bullying 

Prevenir o bullying não é apenas ensinar regras de comportamento — é construir, desde os primeiros anos de vida escolar, uma arquitetura moral que oriente as escolhas da criança quando nenhum adulto está por perto. Essa formação não acontece em uma aula específica: ela é tecida no cotidiano, nas relações, nas rotinas e nos valores que a escola encarna em sua prática diária.

Como desenvolver empatia, respeito e alteridade desde os primeiros anos escolares

A empatia não é um traço fixo de personalidade — é uma habilidade que se desenvolve com prática intencional. Na educação infantil, ela é cultivada por meio de experiências concretas que colocam a criança no lugar do outro de forma repetida e progressivamente mais complexa.

Algumas práticas pedagógicas que desenvolvem empatia de forma sistemática:

  • Nomear emoções dos outros em tempo real: “Olha o rosto do Marcos — ele parece triste. O que você acha que ele está sentindo?” Essa prática, incorporada naturalmente pelo professor ao longo do dia, treina a leitura emocional do outro.
  • Celebrar a diferença como riqueza: trabalhar ativamente a diversidade — de corpos, de famílias, de culturas, de habilidades — cria um ambiente em que a diferença não é motivo de exclusão, mas de curiosidade e respeito. O post sobre como trabalhar a diversidade na educação infantil oferece estratégias complementares para esse trabalho.
  • Praticar a escuta ativa: ensinar a criança a aguardar sua vez de falar, a olhar para quem fala e a perguntar sobre o que o outro disse são micro-habilidades que constroem respeito genuíno.
  • Fortalecer a identidade positiva: uma criança que conhece e valoriza quem ela é tem menos necessidade de afirmar sua posição diminuindo o outro. Atividades de autoconhecimento, como as exploradas no material sobre como trabalhar identidade na educação infantil, são fundamentais nesse processo.

Rotinas pedagógicas que reforçam valores de convivência positiva no dia a dia

Valores não se ensinam com discursos — se ensinam com rotinas. A forma como a sala é organizada, como os conflitos são mediados, como o professor reage à exclusão ou à agressão verbal no exato momento em que acontece: tudo isso é currículo oculto que forma (ou deforma) o caráter moral das crianças.

Rotinas que reforçam a convivência positiva de forma estrutural:

  • Cumprimento diário personalizado: o professor cumprimenta cada criança individualmente na chegada, criando um vínculo de reconhecimento que modela como tratamos as pessoas.
  • Assembleia de turma semanal: espaço regular em que as crianças podem trazer situações que as incomodaram, celebrar boas ações de colegas e construir acordos coletivos de convivência.
  • Canto da paz: um espaço físico na sala designado para que crianças em conflito possam conversar, com apoio de materiais visuais (cartões com passos de resolução de conflito adaptados para a faixa etária).
  • Reconhecimento público de atos de bondade: sempre que uma criança demonstra empatia, inclui um colega ou resolve um desentendimento de forma positiva, o professor nomeia e celebra esse comportamento diante do grupo — reforçando o que se quer ver com mais frequência.

Como envolver a família no combate 

A escola não pode ser a única frente nesse enfrentamento. A família é o primeiro e mais duradouro contexto de socialização da criança — e os valores praticados em casa, a forma como os pais resolvem conflitos e a qualidade do vínculo afetivo familiar têm impacto direto no comportamento da criança na escola. Envolver a família não é opcional: é condição para que qualquer intervenção seja sustentável.

Orientações para comunicar ocorrências aos pais sem gerar conflito

Um dos maiores desafios das equipes pedagógicas é comunicar situações de conflitos recorrentes sem que a conversa com os pais se transforme em confronto, negação ou acusação de bullying. Algumas diretrizes para conduzir essas conversas de forma eficaz:

  • Baseie-se em fatos, não em julgamentos: em vez de “seu filho está fazendo bullying”, diga “observamos que, nas últimas três semanas, o João repetidamente agrediu o Miguel durante as brincadeiras. Registramos esses episódios e gostaríamos de conversar sobre como podemos agir juntos.”
  • Convide, não acuse: posicione a família como parceira na solução, não como ré no problema. “Queremos entender se há algo acontecendo com ele fora da escola que possa estar influenciando esse comportamento.”
  • Para os pais da vítima: seja claro sobre o que foi observado, o que a escola já fez e o que planeja fazer. Evite minimizar (“é coisa de criança”) ou catastrofizar. Apresente um plano de acompanhamento com prazos e responsabilidades definidas.
  • Documente tudo: registre as reuniões, os combinados e os encaminhamentos. Isso protege a escola, a família e, principalmente, a criança.
  • Nunca coloque vítima e agressor (e suas famílias) na mesma sala sem preparação prévia. Mediações prematuras podem revitimizar a criança que já sofre.

Atividades para fazer em casa que reforçam o trabalho da escola

A escola pode orientar as famílias com sugestões práticas e acessíveis que prolonguem o trabalho pedagógico no ambiente doméstico. Algumas ideias que podem ser compartilhadas em reuniões de pais ou em comunicados pedagógicos:

  • Conversa sobre o dia: ao invés de “como foi a escola?”, perguntar “teve alguém que precisou de ajuda hoje? Você ajudou? Alguém foi gentil com você?” — perguntas específicas que treinam o olhar empático.
  • Leitura compartilhada de livros sobre amizade e respeito: reservar 15 minutos por semana para ler junto uma história que aborde esses temas, conversando sobre os personagens.
  • Modelar resolução de conflitos: quando surgir um desentendimento doméstico (entre irmãos, por exemplo), conduzir a resolução em voz alta, nomeando emoções e buscando saídas conjuntas — a criança aprende observando o adulto.
  • Evitar linguagem que normaliza agressão: frases como “se baterem em você, bata de volta” ou “não seja chorão” ensinam que a força resolve conflitos e que demonstrar vulnerabilidade é fraqueza — exatamente o oposto do que a escola trabalha.

Recursos de apoio: livros, vídeos e materiais para usar com as crianças

Uma curadoria de materiais de qualidade poupa tempo do professor e garante que o trabalho pedagógico seja embasado em conteúdo adequado à faixa etária. A seguir, uma seleção de recursos validados para uso em sala de aula ou em casa.

7 livros infantis indicados para abordar conflitos  recorrentes em sala de aula

  1. “Rita, não grita!” – Flávia Muniz (Autor), Walter Ono (Ilustrador) — aborda comportamento e exclusão de forma acessível.
  2. “Elmer, o Elefante Xadrez” — David McKee — clássico sobre ser diferente e se orgulhar disso.
  3. “O Patinho Feio” — Hans Christian Andersen (versões ilustradas modernas) — exclusão e aceitação.
  4. “Quando Estou com Raiva” — Cornelia Maude Spelman — identificação e regulação da raiva.
  5. “O Monstro das Cores” — Anna Llenas — nomeação e organização das emoções.
  6. “Um leão dentro de nós” –  Rachel Bright 
  7. “The Crocodile Who Didn’t Like Water” – Gemma Merino (Autor) – fala de diferenças e sentimentos do não pertencimento. 

    Carlos Lavieri – CEO da rede de escolas Itatiaia e da escola de ensino fundamental Peak School

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