Como trabalhar cordel na educação infantil

O cordel é uma tradição cultural brasileira rica em linguagem poética, ritmo e narrativas que fascinam crianças de todas as idades. Trabalhar cordel na educação infantil vai muito além de ensinar literatura: é uma oportunidade de conectar os pequenos com a cultura popular, estimular a criatividade, desenvolver a oralidade e criar momentos de aprendizagem autêntica e divertida. No Colégio Itatiaia, compreendemos que a educação infantil deve integrar experiências culturais significativas que enriqueçam o desenvolvimento integral das crianças.

Quando incorporamos o cordel às atividades pedagógicas, abrimos portas para a imaginação, o trabalho em grupo e o fortalecimento da identidade cultural brasileira. As rimas, as histórias de heróis populares e os temas do cotidiano presentes nos cordéis capturam a atenção dos pequenos de forma natural, tornando o aprendizado lúdico e memorável. Além disso, essa prática favorece o desenvolvimento da linguagem, da memória e da expressão corporal através de dramatizações e recitações.

Neste conteúdo, você descobrirá estratégias práticas para integrar o cordel em sua sala de aula, desde a seleção de textos adequados até dinâmicas interativas que mantêm as crianças engajadas e curiosas pela cultura popular brasileira.

O que é Literatura de Cordel e Por que Trabalhá-la na Educação Infantil

A literatura de cordel é uma das expressões culturais mais ricas e autênticas do Brasil, com raízes profundas especialmente no Nordeste do país. Levar esse gênero literário para a educação infantil vai muito além de apresentar uma tradição folclórica: trata-se de aproximar as crianças de uma forma de linguagem poética, rítmica e visualmente encantadora, que dialoga diretamente com o universo lúdico da infância. Entender o que é o cordel e por que ele merece espaço na sala de aula é o ponto de partida para construir experiências pedagógicas verdadeiramente significativas.

Origem e Características do Cordel: Contexto Cultural para Apresentar às Crianças

A literatura de cordel chegou ao Brasil a partir dos folhetos populares portugueses trazidos pelos colonizadores, encontrando no Nordeste brasileiro um terreno fértil para florescer com identidade própria. O nome vem do costume de expor os folhetos pendurados em cordas ou barbantes nas feiras livres, onde poetas populares vendiam suas histórias rimadas para o povo. Essa prática remonta ao século XIX e se consolidou como uma das formas mais democráticas de comunicação e entretenimento da cultura brasileira.

Do ponto de vista formal, o cordel possui marcas muito particulares que facilitam sua identificação e exploração em sala de aula:

  • Versos rimados e ritmados: a musicalidade é a essência do cordel, com estrofes que seguem padrões de rima e métrica bem definidos, como a sextilha (seis versos) e a décima (dez versos).
  • Linguagem acessível e expressiva: o cordel usa uma linguagem próxima do povo, repleta de imagens vívidas, humor, dramaticidade e sabedoria popular.
  • Xilogravura: as capas dos folhetos são ilustradas com gravuras feitas em madeira entalhada, criando imagens únicas, em preto e branco ou coloridas, com valor artístico próprio.
  • Temáticas variadas: amor, valentia, religiosidade, animais, fenômenos naturais, personagens folclóricos e o cotidiano nordestino figuram entre os temas mais recorrentes.
  • Formato de folheto: publicado em papel simples, dobrado e costurado, com dimensões pequenas e acessíveis.

Para apresentar esse contexto às crianças da educação infantil, o professor não precisa se aprofundar em detalhes históricos complexos. Basta mostrar um folheto real ou impresso, explicar de forma simples que “eram livrinhos que as pessoas vendiam nas feiras” e destacar as imagens da capa. A curiosidade visual das crianças é imediatamente despertada pelas xilogravuras, criando uma entrada natural para esse universo.

Benefícios Pedagógicos do Cordel na Educação Infantil: Linguagem, Ritmo e Identidade Cultural

Trabalhar o cordel na educação infantil oferece benefícios pedagógicos concretos, alinhados diretamente aos objetivos de desenvolvimento da faixa etária de 2 a 6 anos. A natureza rítmica e sonora dos versos estimula habilidades fundamentais nessa fase.

Desenvolvimento da linguagem oral: a repetição dos versos em voz alta amplia o vocabulário, aprimora a pronúncia e fortalece a consciência fonológica — habilidade essencial para o processo de alfabetização. Crianças que ouvem e repetem cordéis desenvolvem maior sensibilidade para os sons das palavras, percebendo rimas e aliterações de forma natural e prazerosa. Essa vivência se assemelha ao que acontece quando se trabalha parlendas na educação infantil, outro gênero oral que explora ritmo e sonoridade para desenvolver a linguagem.

Estímulo à memória e à atenção: a estrutura repetitiva e cadenciada dos versos favorece a memorização, exercitando a memória de trabalho das crianças de forma lúdica. Ouvir uma história em versos exige atenção sustentada e cria expectativa pelo que vem a seguir.

Construção da identidade cultural: o cordel é um patrimônio imaterial brasileiro reconhecido pela UNESCO desde 2018. Apresentá-lo às crianças desde cedo contribui para que elas se reconheçam como parte de uma cultura rica e diversa. Para crianças nordestinas ou filhas de famílias nordestinas, o cordel pode representar um elo afetivo com suas raízes. Para as demais, é uma janela para a pluralidade cultural do Brasil — aspecto central no trabalho de identidade na educação infantil.

Desenvolvimento da criatividade e imaginação: as histórias do cordel são repletas de personagens fantásticos, situações inusitadas e imagens poéticas que alimentam o imaginário infantil. As xilogravuras, com seu estilo singular, estimulam a percepção estética e a apreciação de diferentes formas de arte.

Integração entre linguagem verbal e visual: a relação entre texto e imagem no cordel é uma oportunidade rica para explorar a leitura de imagens, a narrativa visual e a produção artística com crianças que ainda não dominam a escrita convencional.

Como Apresentar o Cordel para Crianças da Educação Infantil

A maneira como o cordel é introduzido para as crianças determina em grande medida o engajamento e o aproveitamento pedagógico da experiência. Na educação infantil, a mediação do professor é indispensável: é ele quem transforma o texto em experiência viva, adaptando a linguagem, criando atmosfera e conectando os versos ao universo das crianças. Há estratégias específicas e comprovadas para tornar essa apresentação envolvente e eficaz.

Leitura em Voz Alta e Declamação: Explorando o Ritmo e a Musicalidade dos Versos

A leitura em voz alta é, sem dúvida, a entrada mais poderosa para o cordel na educação infantil. Diferentemente de outros gêneros literários, o cordel foi feito para ser ouvido: sua musicalidade só se revela por completo quando os versos são declamados com entonação, ritmo e expressividade. O professor que declama um cordel transforma a sala de aula em um espaço de encantamento.

Para tornar a declamação mais eficaz com crianças pequenas, algumas estratégias fazem diferença:

  • Ensaiar antes: o professor deve ler o cordel escolhido em casa, identificando o ritmo natural dos versos, marcando as pausas e as rimas, para que a declamação flua com naturalidade.
  • Usar variações de voz: alterar o tom, o volume e a velocidade para marcar momentos de tensão, humor ou surpresa na história mantém as crianças atentas e envolvidas.
  • Convidar à repetição: após declamar um verso, o professor pode pedir que as crianças repitam em coro, especialmente os refrões ou as rimas finais. Essa participação ativa transforma a escuta passiva em experiência coletiva.
  • Usar gestos e expressões faciais: o corpo do professor é um instrumento poderoso na narração. Gestos que ilustram as ações descritas nos versos ajudam as crianças a visualizarem a história.
  • Mostrar o folheto enquanto lê: segurar o folheto e exibir as imagens da xilogravura durante a leitura cria uma conexão entre texto e imagem que enriquece a compreensão.

Com crianças de 2 a 3 anos, cordéis mais curtos e de ritmo marcado são ideais. Para crianças de 4 a 6 anos, já é possível explorar narrativas mais longas, fazer perguntas de compreensão durante a leitura e discutir o significado de palavras novas.

Uso de Vídeos, Fantoches e Bonecas de Pano para Tornar o Cordel Lúdico

Complementar a leitura em voz alta com recursos visuais e manipuláveis potencializa enormemente o envolvimento das crianças, especialmente as mais novas. A combinação de diferentes linguagens — oral, visual, tátil — atende à diversidade de estilos de aprendizagem presentes em qualquer turma da educação infantil.

Fantoches e bonecos: criar ou utilizar fantoches que representem os personagens do cordel escolhido transforma a declamação em uma pequena performance teatral. O fantoche pode “falar” os versos, interagir com as crianças e dar vida à narrativa de forma concreta. Bonecas de pano confeccionadas com tecidos coloridos e estampas típicas nordestinas reforçam o contexto cultural e podem ser usadas em brincadeiras livres após a atividade.

Vídeos e animações: existem no YouTube diversas animações e declamações de cordéis infantis produzidas com qualidade, algumas delas com recursos visuais baseados na xilogravura. Assistir a um vídeo antes ou depois da leitura em sala cria uma experiência multimídia que amplia a compreensão e desperta curiosidade. O professor deve sempre pré-selecionar e assistir ao vídeo antes de exibi-lo para garantir a adequação do conteúdo.

Flanelógrafo e painel de imagens: recortar e plastificar as imagens das xilogravuras para usar em um flanelógrafo permite que o professor vá construindo a história visualmente enquanto declama os versos. As crianças podem participar posicionando as imagens na sequência correta, desenvolvendo habilidades de organização narrativa.

Instrumentos musicais simples: o cordel tem origem numa tradição de cantoria. Usar um pandeiro, triângulo ou zabumba para marcar o ritmo durante a declamação aproxima ainda mais as crianças da musicalidade nordestina e torna a experiência sensorial mais rica.

Como Selecionar Cordéis Adequados para a Faixa Etária de 2 a 6 Anos

Nem todo cordel é adequado para crianças pequenas. A escolha criteriosa do material é uma responsabilidade pedagógica relevante, pois o cordel tradicional frequentemente aborda temas como violência, morte, religiosidade intensa e situações adultas que não se encaixam na educação infantil. Felizmente, existe uma produção crescente de cordéis infantis de qualidade que respeita as especificidades dessa faixa etária.

Os critérios essenciais para a seleção de cordéis para a educação infantil são:

  • Temática adequada: animais, natureza, brincadeiras, personagens folclóricos amigáveis, cotidiano infantil e situações de resolução positiva de conflitos são temas apropriados.
  • Linguagem acessível: os versos devem usar vocabulário que as crianças consigam compreender, com apoio das imagens, sem termos excessivamente regionais que dificultem o entendimento.
  • Extensão adequada: para crianças de 2 a 3 anos, cordéis com 4 a 6 estrofes são suficientes. Para crianças de 4 a 6 anos, textos um pouco mais longos já são bem recebidos.
  • Ritmo marcado e rimas claras: quanto mais evidente e regular o ritmo, mais fácil para as crianças acompanharem e reproduzirem os versos.
  • Ilustrações de qualidade: as imagens devem ser expressivas, coloridas e narrativamente coerentes com o texto.
  • Ausência de conteúdo violento, discriminatório ou assustador: revisar o conteúdo completo antes de usar com as crianças é indispensável.

Atividades Práticas para Trabalhar o Cordel na Educação Infantil

A dimensão prática é onde o cordel ganha vida plena na educação infantil. Propostas que envolvem produção, movimento, expressão artística e colaboração transformam o contato com esse gênero literário em experiências de aprendizagem multidimensionais. A seguir, um conjunto de sugestões detalhadas e aplicáveis em diferentes contextos e faixas etárias dentro da educação infantil.

Produção de Xilogravura com Crianças: Passo a Passo Adaptado para a Educação Infantil

A xilogravura é a linguagem visual que define a identidade estética do cordel. Embora a técnica original envolva o entalhe em madeira com ferramentas cortantes, existem adaptações seguras e pedagogicamente ricas para crianças pequenas que preservam a essência do processo sem os riscos.

Adaptação com isopor: a versão mais acessível e segura para a educação infantil utiliza placas de isopor (como as bandejas de supermercado, lavadas e reutilizadas) no lugar da madeira. A criança usa um palito de sorvete, um lápis sem ponta ou um objeto de ponta romba para “entalhar” o desenho na superfície do isopor. Em seguida, aplica-se tinta guache com um rolo ou pincel sobre a superfície entalhada e pressiona-se uma folha de papel para obter a impressão.

Passo a passo para a sala de aula:

  1. Apresente às crianças imagens de xilogravuras reais, conversando sobre o que veem e como acham que foram feitas.
  2. Distribua pedaços de isopor de tamanho adequado (aproximadamente 15×15 cm) e palitos de sorvete ou lápis sem ponta.
  3. Peça que cada criança faça um desenho simples no isopor pressionando o palito — um animal, um personagem do cordel lido, um elemento da natureza.
  4. Com o auxílio do professor, aplique tinta preta ou colorida sobre a superfície com um rolo pequeno.
  5. Pressione uma folha de papel branco sobre o isopor, esfregue levemente e retire com cuidado para revelar a impressão.
  6. Deixe secar e use as gravuras para ilustrar o varal de cordel da turma ou para criar as capas dos folhetos produzidos coletivamente.

Essa proposta desenvolve a coordenação motora fina, a expressão artística, a noção de causa e efeito (pressionar gera uma marca) e a apreciação estética. Para crianças de 2 a 3 anos, o professor pode guiar a mão durante o entalhe; para crianças de 4 a 6 anos, a autonomia pode ser maior.

Criação Coletiva de Cordel em Sala de Aula: Estimulando a Oralidade e a Criatividade

Criar um cordel coletivo com a turma é uma das propostas mais ricas para estimular a oralidade, a criatividade e o senso de autoria das crianças. Como a maioria delas ainda não escreve de forma convencional, o professor atua como escriba, registrando as contribuições verbais do grupo.

O processo pode seguir estas etapas:

  • Escolha do tema: após a leitura de um ou mais cordéis, a turma vota ou decide coletivamente sobre qual assunto quer escrever. Temas como “o bicho que a gente ama”, “a festa da nossa escola” ou “o dia que o sol sumiu” funcionam muito bem.
  • Levantamento de ideias: o professor faz perguntas abertas — “O que aconteceu com o personagem?”, “Como a história começa?” — e registra as respostas no quadro ou em papel craft.
  • Construção dos versos: o professor apresenta a estrutura rimada de forma lúdica: “Vamos inventar uma frase que termine com o mesmo sonzinho de outra?” Propõe o primeiro verso e convida as crianças a completarem o segundo com uma palavra que rime.
  • Revisão coletiva: o professor lê o cordel em voz alta para a turma, que pode sugerir mudanças, acréscimos ou ajustes.
  • Ilustração: cada criança ilustra uma estrofe ou cena do cordel criado, e as ilustrações são reunidas para formar o livro coletivo da turma.

Esse processo dialoga diretamente com as diretrizes da BNCC para a educação infantil, especialmente nos campos de experiência relacionados à oralidade, à escuta, à produção de textos e à expressão artística.

Varal de Cordel na Escola: Como Montar e Explorar com os Alunos

O varal de cordel é uma das formas mais visuais e encantadoras de expor as produções das crianças e de criar um ambiente de letramento literário na escola. Inspirado diretamente na tradição das feiras nordestinas, onde os folhetos eram pendurados em barbantes para serem exibidos e vendidos, o varal transforma corredores, salas e pátios em espaços de cultura.

Para montar um varal de cordel com qualidade pedagógica:

  • Defina o espaço: o varal pode ser instalado na sala de aula, no corredor, na biblioteca ou em uma área comum da escola. Quanto mais visível, maior o impacto cultural.
  • Prepare os folhetos: os folhetos podem ser produções coletivas da turma, cordéis comerciais infantis impressos ou folhetos criados pelas crianças com texto ditado ao professor e ilustração própria.
  • Use barbante e pregadores coloridos: o visual do varal deve ser festivo e convidativo. Barbante sisal ou colorido e pregadores de madeira ou plástico compõem a estética do cordel de forma autêntica.
  • Inclua as xilogravuras produzidas pelas crianças: intercalar os folhetos com as gravuras em isopor ou outras produções artísticas da turma enriquece a exposição.
  • Crie momentos de exploração: o varal não é apenas decoração. Organize rodas de leitura em frente a ele, convide as crianças a escolherem um folheto para ouvir e peça que identifiquem elementos visuais nas imagens.

O varal de cordel também é uma excelente oportunidade para envolver as famílias, convidando-as a visitar a exposição e a participar de uma roda de leitura especial.

Dramatização e Teatro de Cordel: Transformando Versos em Encenações Infantis

O cordel tem uma natureza essencialmente narrativa e dramática, com personagens bem definidos, conflitos e resoluções que se prestam muito bem à encenação. Transformar os versos em dramatizações infantis integra linguagem, expressão corporal, criatividade e trabalho em equipe de forma bastante natural.

A dramatização pode assumir diferentes formatos:

  • Teatro de sombras: cortar silhuetas dos personagens do cordel em papel cartão e projetá-las em um lençol iluminado por trás cria um espetáculo visualmente impactante e simples de montar. As crianças podem manipular as silhuetas enquanto o professor ou um colega declama os versos.
  • Teatro de fantoches: fantoches de meia, de papel ou de tecido representando os personagens permitem que as crianças “entrem” na história de forma ativa e protegida pela distância do personagem.
  • Encenação livre: para crianças de 4 a 6 anos, distribuir “papéis” e deixar que cada uma represente um personagem enquanto o professor narra os versos é uma forma poderosa de desenvolver a expressão corporal e a compreensão narrativa.
  • Cantoria: adaptar os versos do cordel para uma melodia simples — ou usar uma melodia tradicional do baião ou do xote — e cantar coletivamente transforma a declamação em música, ampliando ainda mais o alcance sensorial da atividade.

Atividades de Artes Visuais Inspiradas nas Ilustrações e Capas de Cordel

As xilogravuras do cordel são obras de arte popular com características visuais muito específicas: linhas fortes, contrastes marcados, figuras estilizadas e uma estética que mistura o primitivo com o expressivo. Explorar esse universo com as crianças abre possibilidades riquíssimas para a educação artística.

Algumas propostas concretas:

  • Releitura de xilogravuras: apresentar uma xilogravura conhecida (como as de J. Borges ou Abraão Batista) e propor que as crianças façam sua própria versão usando tinta preta e papel branco, respeitando o estilo de linhas fortes e formas simplificadas.
  • Colagem com tecidos nordestinos: usar retalhos de tecidos com estampas típicas (chita, xadrez, floral) para criar colagens que ilustrem cenas do cordel lido.
  • Pintura com cores típicas do cordel: embora a xilogravura tradicional seja em preto e branco, muitos cordéis contemporâneos usam cores vibrantes. Propor pinturas com paletas quentes e contrastantes, típicas da cultura nordestina, estimula a expressão cromática.
  • Criação de capas de cordel: cada criança cria a “capa” do seu próprio cordel inventado, com um título, uma ilustração e seu nome como “cordelista”. Esse produto final tem grande valor para o desenvolvimento da identidade e do senso de autoria.

Projeto Completo de Cordel na Educação Infantil: Como Planejar do Início ao Fim

Um projeto pedagógico sobre cordel bem estruturado vai muito além de atividades isoladas: ele cria uma jornada de aprendizagem coerente, progressiva e significativa para as crianças. Planejar esse projeto com rigor, alinhando objetivos, sequências didáticas e formas de avaliação, é o que transforma uma boa ideia em uma experiência transformadora. Saber como montar um plano de aula para a educação infantil é o ponto de partida essencial para essa organização.

Objetivos de Aprendizagem Alinhados à BNCC para o Projeto de Cordel

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) organiza as aprendizagens da educação infantil em cinco campos de experiência. Um projeto de cordel pode contemplar todos eles de forma integrada:

  • O eu, o outro e o nós: reconhecer a diversidade cultural brasileira, valorizar as diferenças regionais e desenvolver empatia ao ouvir histórias sobre personagens diferentes de si.
  • Corpo, gestos e movimentos: expressar emoções e narrativas por meio do corpo na dramatização e usar gestos para acompanhar a declamação dos versos.
  • Traços, sons, cores e formas: produzir obras visuais inspiradas na xilogravura, explorar diferentes materiais e técnicas artísticas, apreciar e comentar produções culturais.
  • Escuta, fala, pensamento e imaginação: ampliar o vocabulário por meio do contato com a linguagem poética do cordel, desenvolver a consciência fonológica através das rimas e participar de situações de leitura e escrita compartilhada.
  • Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações: conhecer aspectos da cultura e história do Nordeste brasileiro e compreender que existem diferentes formas de contar histórias em diferentes lugares e épocas.

Os objetivos de aprendizagem específicos devem ser definidos de acordo com a faixa etária da turma, respeitando os grupos etários estabelecidos pela BNCC (bebês: 0 a 1 ano e 6 meses; crianças bem pequenas: 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses; crianças pequenas: 4 a 5 anos e 11 meses).

Sequência Didática Semanal: Roteiro de Atividades com Cordel para Educação Infantil

Uma sequência didática de duas semanas oferece tempo suficiente para aprofundar o trabalho com o cordel sem perder o interesse das crianças. O roteiro a seguir é uma sugestão flexível, adaptável às necessidades de cada turma:

Semana 1 — Descoberta e Imersão:

  • Dia 1: Roda de conversa para levantar o conhecimento prévio das crianças sobre cordel. Apresentação de folhetos reais, exploração das xilogravuras e primeiras impressões.
  • Dia 2: Leitura em voz alta do primeiro cordel escolhido. Exploração do ritmo, repetição dos versos em coro e conversa sobre a história.
  • Dia 3: Atividade de artes visuais — releitura da xilogravura da capa do cordel lido usando tinta preta e papel branco.
  • Dia 4: Exibição de vídeo com animação ou declamação de cordel. Roda de conversa comparando o cordel com outros tipos de história que as crianças conhecem.
  • Dia 5: Início da produção coletiva de cordel — escolha do tema, levantamento de ideias e construção das primeiras estrofes com o professor como escriba.

Semana 2 — Criação e Celebração:

  • Dia 1: Continuação e finalização do cordel coletivo. Revisão em voz alta e ajustes sugeridos pelas crianças.
  • Dia 2: Produção de xilogravura em isopor para ilustrar o cordel coletivo.
  • Dia 3: Montagem do varal de cordel com as produções da turma.
  • Dia 4: Ensaio e apresentação de dramatização ou cantoria do cordel coletivo.
  • Dia 5: Celebração final com exposição do varal, apresentação para outras turmas ou famílias e roda de conversa sobre o que aprenderam.

Como Integrar o Cordel a Projetos de Folclore, Cultura Popular e Identidade Regional

O cordel raramente deve ser trabalhado de forma isolada. Sua riqueza pedagógica se multiplica quando integrado a projetos mais amplos sobre folclore, cultura popular e identidade regional, criando uma teia de conhecimentos interconectados. Saber como trabalhar o folclore na educação infantil de forma abrangente é fundamental para contextualizar o cordel dentro de um projeto maior.

Algumas possibilidades de integração:

  • Projeto Folclore Brasileiro: o cordel pode ser explorado junto com lendas, personagens folclóricos (Saci, Cuca, Boto), músicas regionais e danças típicas. Cordéis sobre o Saci Pererê ou a Iara, por exemplo, criam pontes naturais entre o cordel e o folclore.

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